Quando o vi chegar, olhos vermelhos, triste, vi que tudo tinha acabado.
Não fui capaz de chorar. Senti as lágrimas presas no peito, vi tudo andar à roda e fiquei com falta de ar.
Mas sabes pai, horas antes eu tinha tido um pressentimento de que algo mudara na minha vida. Para sempre.
Não me sai da cabeça o teu rosto no caixão. O ultimo beijo que te dei. Só nessas alturas sei que já não existes de certeza.
Não te vi descer à terra. Chorava demais nessa altura.
Ainda não acredito que te foste, há quase 1 mês.
Sinto a tua presença, por vezes junto de mim. Sinto que estás presente, como se, de facto me visses.
Entendo, agora as tuas atitudes de quereres tratar de assuntos triviais do dia - a -dia. Tu sempre soubeste que te estavas a ir. Mas pensáste que se fizesses a vida continuar, ela iria continuar mesmo. Era uma forma de forçar a vida a continuar.
É tão dificil de continuar a vida sbendo que um dia tudo acaba. Sabendo que apenas temos que esperar que o tempo passe. E quando todo o nosso tempo tiver passado....acabou. Tudo acaba!
Quero focar a minha atenção noutras coisas que não em ti mas só penso em ti. És presença assídua nos meus pensamentos dia e noite. Mesmo quando me divirto com cenas estúpidas que são, ao fim e ao cabo, o sal da vida de toda a gente. A tão aclamada felicidade, feita de pequenos momentos aqui e ali que nos fazem rir e sorrir.
Mas agora só me apetece chorar. E choro sem lágrimas. ficam retidas no meu peito e não saem. Por não saírem, transformam-se num mar, e sinto raiva! Tanta raiva...nem sei contra quê, contra quem. Ninguém tem culpa. É a vida e só temos que aceitar. Entre nós nunca houve manifestações de carinho, e, no entanto eu sei que tu sabes que eu te amo. Sempre amei.Mesmo quando me deixaste para ires para a guerra, mesmo quando me ralhaste, me bateste, me gritaste, eu sempre soube que tudo isso era por amor.
Embora nunca te tenha dito que foste sempre muito importante para mim, eu sei que tu sabes e não preciso de te dizer. Tu nem saberias o que responder.
Ontem disse-te que gostava muito de ti. Tu disseste que sabias.
Tudo isto me faz pensar; afinal porque acordamos e levamos a vida no meio de coisas tão tão importantes para nós ? Porque é tão importante ter dinheiro, casa, educação? Porque tudo isto nos ajuda passar o tempo até ao dia em que , finalmente chega o nosso eterno descanso. É por isso.
Não receio esse dia. Muita vezes ansiei por ele por preguiça de viver, por achar tudo isto uma perca de tempo, uma seca interminável. Não entendo porque toda a gente tem medo do inevitável.Afinal parece que a vida é apenas e só um longo caminho para morte. O que se passa no meio, apenas ajuda a passar o tempo. E dependedo de como o vivemos, pode ser mais ou menos penoso.
Sabes pai, eu sei que vais ficar bem. As minhas lágrimas, a minha dôr, é porque sei que tu sempre gostaste de viver.E são também as lágrimas do meu egoismo, porque choro e me doi já a tua ausência. Tenho saudades de todos os momentos que passei contigo desde que me conheço como gente. De todas as vezes que brincámos, de todas as vezes que nos zangámos, de todas as dificuldades que me ajudaste a ultrapassar. Tenho saudades.
O brilho dos teus olhos já não é o mesmo. Pareces adivinhar o inevitável. Mas admiiro a tua determinação em não te deixares vencer pela doença. A maneira como negas a sua existência. A tua teimosia sempre pesente. A mesma que te levou à desgraça.
Senti a tua falta durante tanto tempo...
Durante toda a minha vida houve apenas um breve periodo em que me senti amada por ti. Mas eu sabia que me amavas apesar do teu ar distante, dos teus modos rudes. Sempre soube. Apenas não sabias como demonstrar. Sempre a resmungar estiveste lá quando precisei.
Sabes, sempre te quis fazer feliz. Sempre quis ser a menina que sonhaste que eu fosse. Tive pena quando te desiludi. Quando tive a certeza que estavas feliz com a minha vida, fui a mulher mais feliz do mundo.
Parece que Deus quis que me visses feliz antes de te querer para ele.
Sabes pai, eu nunca te disse, assim com todas as palavras, mas amo-te muito. Muito muito..
Não quero acreditar que está a chegar a tua hora. Ainda há tanto que eu queria que visses. Queria que os meus filhos te fizessem feliz como eu não fui capaz. Queria que brincasses com eles. Queria que brincasses com o Simão como já brincaste com a Carolina. Queria que o levasses ao futebol, queria que ele corresse para ti de braços abertos como a a carolina já fez. Queria que o meu irmão te desse os netos que tu sonhaste. Queria que te sentisses orgulhoso da vida dele. Aquele bébé que tu mais amaste na vida, queria ele te desse netos e que também ele te desse a felicidade e o orgulho que eu nunca consegui.
Não quero acreditar que atua teimosia te vai levar de nós.
Não posso crer que aquelas férias na praia foram as nossas ultimas.
Não posso acreditar.
Ainda há tanto para tu viveres connosco, para nós vivermos contigo pai, não pode acabar assim. Assim é uma estupidez.
É uma injustiça.
Nunca pensei que era possivel ser tão feliz.
Sabia, quando escrevia para ti neste espaço há anos atrás, que só contigo seria assim.
Valeu a espera, o esforço, todo o sofrimento.
Nunca mais vou ter inspiração para escrever coisas tão bonitas como escrevi no passado, para ti. A mim só o sofrimento e a dor de alma trazem inspiração.
Só uma palavra descreve tudo o que sinto por ti, e cada dia mais; Amo-te.
Pois todos os dias são de paz, todos os dias penso que não poderia ser mais feliz, todos os dias agradeço a Deus por te ter trazido para mim.
Todos os dias meu amor, contigo, são de pura felicidade.
Aquele momento ficou para sempre marcado em mim.
Ainda te sinto quando oiço aquela musica. Lembras-te? Não... sei que não. Mas sinto, cada vez que oiço, o perfume que usavas na altura, os sons... sinto os sons que nos envolveram aos dois naquele momento magico em que soube que teria que ser tua.
Sabia, como sei hoje que seria efemero o nosso pertencer, mas que seria bom, e que ficaria para sempre nas nossas memórias, aquele tempo, aquele calor, aquela paixão. Nunca como naquela altura soube tão bem o singificado deste termo. Paixão. Porque foi tão forte e tão depressa passou. Mas recordo ainda com saudade, o teu rosto, lindo, TU.
E doi, saber que mesmo que ambos queiramos, esse momento não voltará nunca mais. Porque não é para ser.Não é para ser! Mas a saudade....é a saudade das sensações boas, da liberdade do que foi o nosso encontro, da doçura que foi. Da beleza. A saudade de ti. Tão livre, tão solto, tão puro como só tu sabes ser.
Por vezes penso que por seres tão belo, por viveres no teu mundo tão só teu, nem eu, nem o resto de toda a gente te aceita. Porque não sabemos ser como tu, nem aceitamos que possa existir alguém que queira mudar o mundo, quem sabe, para a felicidade.
Recordo como fui tua, como foste meu, como fomos efemeramente felizes. Sabendo sempre, que a vida nos separava pelas diferenças que naquele encontro nos uniram de forma tão UNICA.
Andei pela vida, como pelo campo; A ver as cigarras a cantar, as flores a balançar, os pássaros a voar, a chilrear.
Passei pela vida, sempre a observar. Sem agir, sem viver, sem sentir. Voei ao sabor da brisa que soprava.
Cheguei, por fim, a uma clareira, no meio do campo. À sua volta, três carreiros. E eu, devia escolher um. Não havia vento, nem sinal, nem nada que me desse uma pista de onde aqueles caminhos iam dar. Ali fiquei, estática. Parada. Com medo de agir. Com medo de sentir. Medo de decidir.
Medo.
O livre arbitrio é o castigo de Deus por Eva ter comido a maçã do conhecimento.
Não era suposto termos que escolher.
A ditadura divina era uma benção para a humanidade.
E por fim decidi.
E agora aqui estou.
À espera das consequências. E com medo.
Era eu que não queria que a Primaversa se fosse. Queria que a minha vida fosse sempre verde e fresca e que nunca se transformasse em variações de temperatura outonais.
Por isso olhei para ti e vi verde. Água pura de nascente, limpida, habitada por seres frutos da minha imaginação. Puros sentimentos que, afinal, nunca existiram.
Olhava no fundo dos teus olhos e via o mar azul e da tua boca apenas ouvia musica cantada por mil pássaros felizes.
Tudo ilusão...era tudo o que eu mais desejava ver e não o que na realidade era.
Agora olho e vejo, realizo o comum, nada mais. Chuva de Outono, folhas secas, arvores cansadas na espectativa do Inverno. O reflexo da minha alma, também ela cansada.
A vida passa e se não agarramos AQUELE momento, é como uma cascata; cai, cai, cai...A água renova-se, é certo.Mas nunca mais é a mesma.
Viajo sozinha nesta jornada.
Sinto a minha alma só.
Abandonada pela vida mas afogada no seu mar.
Um rio sem destino final.
Desde que decidi deixar-te ir, fiquei desamparada. Como se o amor que eu retinha por ti no meu coração, fosse a ancora que me impedia de andar à deriva pela vida. Sinto-me à deriva, sem ter onde atracar, sem saber para onde olhar.
O meu olhar, que antes era teu, agora perde-se no vazio...
Perdi-me.
Sinto que me perdi de mim, dentro de mim.
Não sofro mais por ti. Penso que, agora, me és mesmo indiferente.
Mas até isso me doi; a indiferença que me inspiras.
Lembras-te das palavras? As minhas cairam-me à frente. Desistiram de chegar até ti. Perderam a força para tentar. Eu enterrei-as e tu viste. O teu olhar perguntou-me porquê. Eu escolhi não responder.
Sinto-me à deriva. Sem emoções.
Sobre mim paira a vida. Eu tento agarrá-la mas não sei com que mão lhe hei-de chegar. Penso que com o tempo hei-de agarrá-la com o coração. Estou perdida dentro de mim sem saber em parte da minha alma me encostar.
Não foi só de ti que me desiludi. Desiludi-me de muita gente, de muita coisa, de muitos conceitos. Pergunto-me, será que vale a pena?
O espirito evolui com o sofrimento, eu sei. E sei que depois de tudo isto vou tornar-me,certamente, uma pessoa melhor.
Viver doi. Custa.
Doi estar à deriva. Sem âncora para me prender a um porto. Sem porto para atracar. Doi.
Sinto-me sem terra. Quase sem identidade.Sinto-me só eu.
Nunca me senti assim. Só eu. Só eu dentro de mim.Uma mulher
O meu peito transborda e não sei o que fazer com o que tenho para dar. Os sentimentos pairam sobre mim, vagueiam ao meu lado, voltam, tentam sair, mas não encontram destino fora de mim. Ficam em mim. O meu peito explode. Não tenho a quem dar este tipo de sentir.
Só eu. Uma mulher.
Um ser unico. Como cada um de nós.
Hoje mais uma vez perdi-me nos teus olhos, afoguei-me neles sem remédio.
Hoje mais uma vez senti que entre nós ficaram coisas por dizer.Senti as palavras vaguearem entre nós sem nos atingirem.
Senti o que tinha para te dizer empurrar não sei o quê na minha garganta sem conseguir sair e ir ao teu encontro.
Não sei o que sentiste, mas vi-te englolir em seco e senti o que tu sentiste vir ao meu encontro. Algo sem nome, mas intenso. Vi-te estender os braços para mim, senti que me querias tocar. Uma vontade quase imperativa. Não me abraçaste. Não me tocaste. Mas eu senti.
E ali ficaram as palavras no meio de nós. Vi-as rodopiarem, formarem um remoinho de emoções não confessadas, girarem sobre si mesmas e perderem-se no vazio antes de voltarem para nós.
O travão que pões no teu coração trava o meu.
Mete-me medo porque não sei se é real o que eu penso que tu sentes, se são coisas da minha cabeça. Tenho medo que sejam reais, tenho medo que não sejam. Se são porque as travas? Se não são, porque sinto eu que são? O que é isso que tens para me dizer e não dizes? Porque afogas as palavras dentro de ti? Se libertasses o teu discurso, só um bocadinho, eu libertava o meu. Também sei que, se eu expulsasse de mim tudo o que tenho para te dizer, tu falavas. Mas tenho medo do teu falar. Tenho medo que me magoes.
Assim cada vez que nos vemos, ficam coisas por dizer. Um mundo de palavras soltas no meio de nós. Sem sentido. Querendo fazer-nos sentir sem o conseguir.
E sinto que elas nos puxam um para o outro.Devem ser elas aquela força que nos atrai um ao outro, e que nos faz dar voltas e mudar de posição e olhar para o lado com fingida indiferença, não querendo mostrar que ambos nos perturbamos.
São elas, as palavras.
Elas querem libertar-se libertando-nos. Por isso fazem-nos sentir assim, presos no magnetismo um do outro.
Enquanto não falarmos vai ser assim.As palavras ficam dentro de nós e pesam-nos no coração. Estrangulam-no. Apertam-no. Ensopam-no em sentimentos febris e desenfreados que não conseguimos soltar.
É isso também aquele mau estar no estomago quando te vejo. Indigestão de palavras.
Não se deve deixar nada por dizer.
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. SAUDADE
. PAI
. CONSEGUI
. ENCONTRO
. OUTONO
. À DERIVA
. PALAVRAS