Quinta-feira, 20 de Maio de 2004

PALAVRAS

Hoje mais uma vez perdi-me nos teus olhos, afoguei-me neles sem remédio.


Hoje mais uma vez senti que entre nós ficaram coisas por dizer.Senti as palavras  vaguearem entre nós sem nos atingirem.


Senti o que tinha para te dizer  empurrar não sei o quê  na minha garganta  sem conseguir  sair e ir ao teu encontro.


Não sei o que sentiste, mas vi-te englolir em seco  e senti o que tu sentiste vir ao meu encontro. Algo sem nome, mas intenso. Vi-te estender os braços para  mim, senti que me querias tocar. Uma vontade quase imperativa. Não me abraçaste. Não me tocaste. Mas eu senti.


E ali ficaram as palavras no meio de nós. Vi-as rodopiarem, formarem um remoinho de emoções não confessadas, girarem sobre si mesmas e perderem-se no vazio antes de voltarem para nós.


O travão que pões no teu coração trava o meu.


Mete-me medo porque não sei se é real o que eu penso que tu sentes, se são coisas da minha cabeça. Tenho medo que sejam reais, tenho medo que  não sejam. Se são porque as travas? Se não são, porque sinto eu que são? O que é isso que tens para me dizer e não dizes? Porque afogas as palavras dentro de ti? Se libertasses o teu discurso, só um bocadinho, eu libertava o meu. Também sei que, se eu expulsasse de mim tudo o que tenho  para te dizer, tu falavas. Mas tenho medo do teu falar. Tenho medo  que me magoes.


Assim cada vez que nos vemos, ficam coisas por dizer. Um mundo de palavras soltas no meio de nós. Sem sentido. Querendo  fazer-nos sentir sem o conseguir.


E sinto que elas nos puxam um para o outro.Devem ser elas aquela força que nos atrai um ao  outro, e que nos faz dar voltas e mudar de posição e olhar para o lado com fingida indiferença, não querendo mostrar que ambos nos perturbamos.


São elas, as palavras.


Elas querem libertar-se libertando-nos. Por isso fazem-nos sentir assim, presos no magnetismo um do outro.


Enquanto não falarmos vai ser assim.As palavras ficam dentro de nós e pesam-nos no coração.  Estrangulam-no. Apertam-no. Ensopam-no em sentimentos febris e desenfreados que não conseguimos soltar.


É isso também aquele mau estar  no estomago quando te vejo. Indigestão de palavras.


Não se deve deixar nada por dizer.

publicado por sofianalua às 16:00

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25 comentários:
De encandescente a 21 de Maio de 2004 às 22:58
este teu texto sofia esta muito mas muito bom! foi escrito mesmo om uma "indigestão de palavras" e libertaste-as aqui. bj
De ccc a 21 de Maio de 2004 às 18:14
indigestão de palavras, uma excelente definição. Sofia.
De lia a 21 de Maio de 2004 às 18:01
não é a 1ª nem a 2ª vez que sinto como se fosse meu o texto que escreves! simplesmente espectacular, devemos ter passado pelo mesmo.
o que é que tens a perder? mesmo que diga não, não há pior que a incerteza...acredita!!
beijos
De Bela a 21 de Maio de 2004 às 16:46
Olá Sofia!Vim retribuir-te a visita e dizer-te que adorei o teu blog!Em relação àquilo q os dois sentem, vai em frente, pois não há nada pior do que remoermos a nossa cabeça por algo que tivemos medo de fazer!Arrisca e vai e frente!Beijinhos
De zeus a 21 de Maio de 2004 às 16:36
As palavras acabaste-as de as escrever!
De sofia a 21 de Maio de 2004 às 15:37
MG: o meu mail: sofianalua@sapo.pt Vá dá-me a descasca!
De MG a 21 de Maio de 2004 às 14:50
Tu não ligas nenhuma ao que te dizem , pois não?
É pena não teres o endereço de mail à vista poque se tal acontecesse levavas uma descasca... :)))
De sibylla a 21 de Maio de 2004 às 13:12
Há que enfrentar, não ter medo e, acima de tudo, compartilhar. Tenho a impressão de que, cada vez, há menos espaço para dizer o amor. Um beijo.
De Marta a 21 de Maio de 2004 às 13:05
Cada vez gosto mais :). Bom fim de semana.
De CHAU a 21 de Maio de 2004 às 12:23
Muito bem escrito !!! Continua !!! http://coisaporreiras.blogs.sapo.pt

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